O CIRCO CHEGOU

O circo estava na cidade. E eu aqui presa pelo fim de semana inteiro por ter subido em uma árvore e ter me estatelado no chão. 
Droga de vida. 
Quando finalmente acontece alguma coisa interessante nessa vila estúpida, eu estou proibida por mim mesma de prestigiar o evento. 
(...)
Já era noite. Meus pais e minha irmã caçula estavam se preparando para ir assistir a abertura do circo, que ficaria na vila por todo o final de semana. 
Minha mãe me deu um beijo na testa e disse:
- Não se preocupe querida, nós não vamos demorar. Assim que o espetáculo acabar estamos em casa. 
- Tudo bem mãe, não se preocupe comigo. Eu não vou a lugar algum. Nem posso. - Disse com tristeza, olhando para meu tornozelo quebrado. 
Minha mãe me deu um sorriso amarelo, se despedindo. 
Fiquei ouvindo o barulho do carro se afastando, até finalmente desaparecer por sobre o morro. 
Lágrimas começaram a escorrer em meu rosto e tudo o que eu queria era sumir. Então, peguei meu diário e comecei a escrever:

"Querido diário, hoje de manhã subi no maior pé de manga que tem aqui em casa, mesmo contra a vontade de minha mãe. E acabei caindo. Quebrei o tornozelo e não consigo dar nenhum passo. De tarde fiquei sabendo que o circo tinha chegado. Consegue imaginar o tamanho de minha raiva?! Eu amo tanto circo. Queria tanto ir... Mas agora é tarde."

Assim que terminei de escrever. Deitei na cama e peguei no sono, para ter um sonho muito estranho. 

Eu estava dormindo em minha cama, quando apareceu uma mulher alta vestida por completo de preto. Ela tocou em meu tornozelo, me fazendo sentir uma dor terrível mas, assim que tirou a mão, a dor desapareceu. E junto com a dor, a mulher também desapareceu. 

Acordei suando em minha cama e levantei para tomar um copo d'água. 
Opa. Levantei? Meu pé não está doendo? O que houve aqui? Será que o sonho foi real? 
Não. Não pode ser. Essas coisas não existem. 
Sentei em minha cama tentando fazer minha respiração voltar ao normal. Se eu estava boa poderia ir ao circo! Mas como explicar isso para os meus pais, se nem eu mesma sabia o que tinha acabado de acontecer?
Deitei em minha cama e fechei os olhos, tentando dormir, mas sem muito sucesso. Quando minha família chegou, eu ainda estava acordada mas, para não ter que conversar com eles, eu fingi que estava dormindo.
No outro dia, antes de levantar, ouvi meus pais conversando sobre o circo e que tinham vontade de ir hoje novamente. Então levantei da cama e caminhei até eles.
- Como você está caminhando filha?! - Perguntou meu pai, assustado.
- Acho que foi apenas um mau jeito. Meu pé não está mais doendo. - Respondi sorrindo de orelha a orelha, tentando esconder o real motivo por eu estar bem.
- Que ótimo então! Nós vamos ao circo hoje de novo, você pode ir conosco! - Respondeu minha mãe, ainda olhando suspeita para meu pé, mas com um sorriso no rosto.
- Ah, que bom mãe! Estou tão ansiosa! Como foi ontem?
- Foi diferente de tudo o que nós já vimos ou imaginamos. - Ela respondeu enigmaticamente, fazendo sua mente viajar até a noite anterior para relembrar dos detalhes.
(...)
Durante o dia, tentei pensar em outra coisa além da mulher de preto que me visitou noite passada, mas isso não saia da minha cabeça. Estava ansiosíssima para ir ao circo de noite e estava começando a achar que aquela estranha mulher tinha algo a ver com isso.
Passei o dia todo lendo e tentando convencer meus pais de que meu pé estava realmente bom, e que não, eu não estava fingindo apenas para ir ao circo.
Quando já era noite, nos encaminhamos para o local onde a tenda do circo estava montada. Era um campo aberto, em um lugar isolado da cidade, mas, nem por isso o circo estava vazio. Pelo contrário, estava lotado. Tinha 5 bilheterias e 5 entradas, todas as quais estavam com fila.
Finalmente passamos pela "porta" de entrada e o que vi me deixou totalmente abismada.
Era tudo em preto, branco e vermelho. Haviam macacos subindo pelos postes que mantinham a tenda no alto; mulheres barbadas e homens extremamente grandes andando de um lado para o outro, conversando com as pessoas e às atraindo para seus espetáculos; videntes e médiuns que garantiam terem poderes de verdade; mágicos fazendo truques de um tipo totalmente desconhecido aos olhos das pessoas, sem parecer ser de mentira; e tantas outras coisas novas que muitas eu não sabia nem o nome.
Quando o show finalmente começou, uma música estranha começou a tocar e minha mente vagou para um mundo desconhecido e sombrio. Tudo ao meu redor desapareceu. pareceu sumir e, naquele momento, ficamos apenas eu e a contorcionista, que estava entrando com uma roupa vermelha e colada, apenas suas luvas eram pretas. Quando ela terminou de desfilar para o meio do palco, pareceu olhar diretamente para mim, e foi neste contato visual que percebi que ela era a mesma mulher que me visitou "em sonho".
Olhei completamente hipnotizada enquanto ela se contorcia de um jeito quase demoníaco. Braços e pernas se encontravam em um emaranhado de poses e cambalhotas. Eu estava assombrada.
Quando ela estava terminando a apresentação e prestes a se curvar para agradecer ao público, fixou seus olhos novamente em mim e, nesse instante ouvi:

"Fui eu que fiz seu pé melhorar misteriosamente. Você devia ver a minha apresentação na noite de hoje. Quero que você venha com o circo para seguir meus passos de contorcionista. Está no seu sangue. Seus pais, na verdade, não são seus pais. Você foi abandonada aqui por mim, há algum tempo atrás. E hoje, vim reivindicar você de volta. Não deixe nenhum bilhete. Nenhuma mensagem. Apenas venha comigo e não olhe para trás."

E, assim que terminei de ouvir a mensagem mental, levantei e comecei a andar em direção a ela. Sem olhar para trás. Sabia que tudo o que ela falara era verdade. Não sei como sabia, só sentia que sim.
Finalmente meu desejo de viver coisas interessantes e curiosas estava sendo realizado. E eu não senti nem um pouco quando deixei minha família para trás. Sabia que estava caminhando em direção à minha verdadeira família.

Dâmaris. 

Um comentário

  1. Olha! Parabéns.
    Gostei bastante do seu conto, depois vou ler os outros também.

    http://luizcezarescritor.blogspot.com.br/

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